Quadrilha

bunting flag venue decor

Q
uando eu tinha nove para dez anos minha mãe decidiu me colocar na catequese, pra ter um contato maior com a religião (católica). E, dentre algumas comemorações religiosas, a festa de São João ganha maior destaque. A quadrilha sempre foi a parte mais aguardada da festa, principalmente quando se contavam com a participação de crianças onde uma porção de pais babões ficavam segurando suas câmeras fotográficas de filme da pré-história e se acotovelavam entre si pra pegar o melhor ângulo do filho(a).

É claro que, como eu estava na igreja, minha instrutora de catequese convidou as meninas e meninos para participarem da dança e da festa que ocorreriam lá, após a missa, (ou seja, eu tinha que participar ou seria vista como a única quem não ''participou ativamente* de uma festa de cunho religioso e de demonstração de companheirismo entre os demais fiéis''), então eu tive de ir.

Eu sabia que seria a última a ser escolhida  porque, desde pequena, eu era a excluída das demais meninas por ser nerd, baixinha, feia e super protegida pela mamãe (não era  já a prática do bullying em si, porque nem era um termo muito empregado e ninguém tinha tido noticias de que alguém morreu por isso, mas por que eu era - continuo sendo - uma pessoa de hábitos reclusos e caladosno entanto, eu não me importava). Mas é claro que eu estava com uma pontinha de esperança. Como estavam em falta os meninos - estatística que se reflete desde aquela época até hoje - convidaram alguns meninos do bairro mesmo (oh, triste opção).

Então, eis que fui escolhida. Na verdade, fomos todos separados, o que não significa que eu não tenha sido a última, o que de fato aconteceu. Me lembro da cara do meu par quando descobriu que eu seria sua parceira. Não sei se foi susto, surpresa, ou o que quer que seja. Ele olhou pra mim, e depois pros amigos dele que viram que na cara dele estava estampado o desespero e queria me trocar como se eu fosse uma peça malfeita. Eu sei disso porque ele apontou pra mim enquanto segurava pelo braço daquele modo entrelaçado caipira, e disse pros amigos dele: ''Olha isso!'' como se eu fosse uma atração curiosa de circo.

Hoje em dia, a única coisa que me interessa nessas festas são as comidas típicas. Aliás, de todas as festas de todos os gêneros, seja Natal, Páscoa ou Sexta-feira da Paixão. Só que minha mãe não nos deixa esquecer de todo o significado religioso do dia. Até em casamentos eu solto aquele comentário no ouvido da pessoa mais próxima, como quem vai comentar sobre o vestido deslumbrante da noiva, e pergunto: ''Como será que vai estar o buffet, hein?''

Atraente - Chiquinha Gonzaga
Foto: {1}
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*Porque também contribuíamos com comidas típicas e na decoração da igreja.

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